Mas falando a sério, valeu a pena?
- cris campos
- 19 de set. de 2018
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Já não poderíamos escrever como naquela época, nos anos escuros quando acreditávamos que o poder celeste nos pertencia, quando era fácil acreditar que escreveríamos a Grande Obra, o poema de grande fôlego com a música e o significado que nos dariam os deuses (como não acreditar?), que a poesia e o anjo, a figura e a forma seriam para nós. Mas ao olhar o que escrevemos ao longo dos anos tomamos consciência de que as asas das aves não, definitivamente não, batiam com um ritmo próprio, que na verdade não podíamos dizer exactamente o que queríamos dizer, que em poesia, salvo um ramo de poetas em cada século, os outros se devem resignar a serem os lacaios que conduzem o carro dos grandes, e sem dúvida alguma garanto-vos que, ao menos a poesia me deu outras coisas: uma maneira de olhar o voo das aves migratórias, de construir a partir dos sonhos imagens de pinturas e de filmes, de apreciar mais plenamente a leveza e a doçura do corpo das mulheres, de admirar muitas tardes e noites as fileiras dos mastros nos portos, a figueira e a oliveira no meio do jardim na noite azul de um Jesus Cristo azul, porque o reino de Deus, não estava perto, mas dentro de nós. Mas, falando a sério, esta é uma pergunta para mim ou para qualquer outro poeta que se põe em determinado momento da nossa vida: valeu a pena o sacrifício, valeu a pena abandonar a aposta da acção para entregar a vida à inutilidade da poesia?
Marco Antonio Campos
(Tradução de Jorge Sousa Braga)





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